quinta-feira, 21 de junho de 2007
Um cigarro por favor!
Senta-se no mesmo sofá de sempre, não consegue comprar seu maço de cigarros sem tomar um café.
Tem o mesmo pensamento todos os dias: - Só comprarei o maço e vou-me embora.
Mas ali sentado, fica esperando que algo diferente aconteça, algo que faria sua vida um pouco menos repetitiva, um novo acontecimento que o deixaria com um pouco mais de vontade de viver o dia seguinte.
E no dia seguinte um novo maço de cigarros no mesmo lugar, o mesmo café para o mesmo garçom, na mesma mesa e com a mesma quantidade de açúcar, o mesmo tempo sentado esperando algo acontecer, talvez lendo o jornal de ontem sem nem mesmo perceber que a revista em sua mão, era a mesma de anteontem.
Nem mesmo se atrevia a mudar o caminho percorrido todos os dias atrás do mesmo maço de cigarros, para tomar o mesmo café, na mesma mesa e servido pelo mesmo garçom que todos os dias perguntava: - O de sempre? E a resposta era sempre a mesma.
O sempre se repetia todos os dias.
Olhava para o lado e sempre tinha as mesmas pessoas, e todos os dias cumprimentavam-as com o mesmo balançar de cabeça e o mesmo leve sorriso no rosto fingindo estar sempre contente com a presença daquelas pessoas de sempre. Nos dias de finais de semana, para descontrair, ousava dar um leve aceno com as mãos para as pessoas que encontrava todos os dias.
O seu olhar no relógio era sempre exato, só olhava-o para ter a certeza de que não havia se atrasado, o movimento, uma olhadela, nem precisa fixar os olhos por muito tempo nos ponteiros. Tinha a mesma precisão de seu relógio suíço. Era a mesma hora de de ontem.
Sentado no mesmo lugar, pensava o mesmo pensamento todos os dias, e todos os dias chegava na mesma conclusão, e saia da posição de pensamentos de todos os dias e mudava-se para a posição de conclusivo de todos os pensamentos de sempre.
Conversava com as mesmas pessoas, as mesmas conversas, com as risadas de sempre e com as perguntas que já tinha respondido ontem e calava-se na mesma hora da conversa, questionando sempre as mesmas coisas, escutando as respostas da semana retrasada, para terminar um assunto que era discutido todos os dias. Para uma certa altura desse bate-papo de todos os dias, mudar de assunto. Sempre comentava uma notícia de ontem.
As novidades para ele não demoravam a se tornar o de sempre. As novidades já chegavam dois dias depois.
Sua dúvida de ontem era a mesma de hoje, sua vida é sempre a mesma desde ontem até amanhã.
E o seu amanhã é sempre igual ao ontem.
E quando olhava o anteontem, já sabia o que iria acontecer depois de amanhã.
Envolveu-se em uma bolha, uma bolha da sua vida.
A espera de que algo diferente acontecesse não o fazia notar que a brasa do seu cigarro, poderia furar essa bolha, vivia o seu dia-a-dia com a esperança de alguma novidade acontecer.
Mas no dia seguinte o seu cigarro acabou...
-Um maço de cigarros, por favor.
Colcha de retalhos humana
Sou um pouco de cada pessoas que amo.
Sou um catado de cada amigo que levo no peito.
Sou um resto das coisas que gosto.
Sou um mínimo de quem admiro.
Sou metade ilusão e outra metade razão.
Sou eu mesmo.
Sou os outros.
Sou verdade.
Sou mentira.
Sou existência.
Sou abstrato.
Sou real.
Sou surreal.
Sou o resto do que pensei ser.
Sou o ser do que resta de mim.
Sou a tentativa.
Sou o fracasso.
Sou o nascimento
Sou a dúvida da vida.
Sou o hospedeiro da doença.
Sou a vacina.
Sou a cura.
Sou a certeza da morte.
Sou certeza?
Sou dúvida.
O formato de vida é o mesmo formato do ar.
O formato de vida é o mesmo formato do ar.
Velhas Lembranças
Mudamos de bairro,
Da nossa rua já saímos.
Mas retornamos as antigas lembranças:
- E lembra de como éramos felizes?
- Lembra da nossa velha casa?
- Era decorada com alegria.
Em nossa rua as peladas com os amigos,
- No bairro a nossa escola,
- ... olha, ali morou meu primeiro amor.
E a casa da vovó!
- Ainda vejo a cadeira do vovô,
- Passávamos tardes brincando com ele.
Quantos amigos tínhamos?
- Lembra, ficávamos em cima da mangueira.
- Nunca mais comi mangas tão gostosas.
E hoje?
- Não vemos mais infância?
Mas retornamos as antigas lembranças,
E lembra de como éramos felizes?
Homenagem ao São Painho
No São Painho, aprendi a gostar ainda mais de música e amar ainda mais as noites.
Então, público hoje esse poema. Bateu no peito aquela saudade. Será que haverá outro lugar ou até mesmo parecido com o São Painho?
Homenagem ao São Painho
Quando o sol se põe
A lua nasce
As geladas iam para as mesas
Era a hora de ir para o São Painho
Lá era o lugar mais democrático do mundo
Só existia uma raça de pessoas.
Os boêmias!
Em busca da alegria, todos iam lá
Mas esse lugar ficará para sempre em nossos corações.
Tom, Vinícios, Baden e vários outros
Estavam sem lugar para bebericar e compor
Como tudo que é excelente só existe de passagem,
Vá São Painho
Assim fico mais tranquilo
Quando chegar a minha vez de partir.
Já sei que existirá um lugar
Onde eu possa sentar, beber e ser feliz.
Desapercebido
Todos temos muitos problemas, mas olhe uma vez para o seu lado!
É, tem uma criança ali sentada.
Você tem razão...Parece que ela está com fome, mas a sua resposta é quase sempre a mesma:
- Vou ficar te devendo, hoje eu não tenho trocado.
- Ai, eu tenho uma pena destas crianças pedindo coisas na rua.
Mas você segue indiferente a tudo que viu, e cinco minutos depois, estou sendo otimista arriscando um tempo tão alto.
- Você viu o meu Nike novo?
- Quanto custou?
Quase nada, só a escravidão de alguns trabalhadores, que por pura ironia do destino nunca terão dinheiro para comprar o tênis que fabricam, é uma escolha muito difícil de fazer. O tênis ou a comida?
Você preferiu seu tênis, porque aquele garoto do semáforo, que mais uma vez ficou sem comida vai escolher o tênis da próxima vez. Mas cuidado que pode ser o seu, ou o seu relógio, carro e quem sabe ele não entre na sua casa para escolher mais algumas coisinhas.
Agora ele é um marginal.
Mas ele tentou, procurou um emprego, mas não sabia escrever para preencher o formulário de inscrição, daí foi para o semáforo pedir dinheiro, mas escutou muito não, teve uma idéia: - Lavar o vidro dos carros parados no semáforo!
Mas a máfia já estava instalada, e quando tentou trabalhar apanhou por estar ocupando o lugar de outro.
Tentou ir para a escola, mas o pai disse que isso não daria futuro e o levou para trabalhar ainda criança.
A rua sempre foi melhor que sua casa, talvez por ter mais lugares para se esconder, num destes lugares escuros, onde vários iguais a ele se escondiam. Ali teve a sua primeira viagem, onde tudo o que viveu o levou a pensar em coisas que nunca havia passado pela sua cabeça. Assim como nas drogas, foi ali que ele pegou o primeiro revolver e viu o cara mais considerado da quebrada passar com um carrão com rodas bacanas e duas minas abraçadas com ele. E ali teve a dúvida de que sua vida, do modo em que estava não valeria a pena, e chegando em casa (na verdade um barraco feito de lona, porque o barraco que era feito de madeira foi levado na última enchente), olhou suas esperanças, jogadas no chão com um litro de cachaça nas mãos, e teve a certeza de que o revolver o tiraria daquela vida.
Aos quinze anos se tornou ladrão bem sucedido, sem apavoro chegava, fazia o que tinha que fazer e ia embora sem machucar ninguém.
Pronto, descobriu-se bom ladrão.
De tanto levar porrada ele decide um dia bater, escolhe a sociedade para saco de pancada, e a “sociedade cega” tenta revidar, sem nunca perceber que já bateu o suficiente para deixar marcar irreparáveis em um cidadão que hoje é um marginal, e essa “sociedade cega” que só tem olhos para o seu umbigo lipoaspirado e com um pircings, continua a bater e a deixar marcas em outros cidadãos.
Mas mesmo assim, quando você para em um semáforo, ainda fecha o vidro...
Paradoxo da paixão
Boca carnuda
Cabelos cacheados
Vermelho é a paixão
Desejo ardendo
Teus olhos fugindo
Sua boca disse não
Contrariedade aumenta vontade
Razão escuta um não
Desejo entende sim
E você foge de mim
Finjo que sou surdo
Você cega
Na teimosia vontade não cessa
Não me responde
Fico nervoso
Queria escutar um sim
E você repete não
O vermelho da raiva
E o mesmo da paixão
Mas não vou aceitar um não
Depois vem o preto, vermelho e o amarelo
E várias outras cores.
Mas tudo em cima do branco.
Parece que tudo mesmo vem do branco...
O branco é o começo de tudo,
Às vezes o branco é o final de tudo,
E quando da um branco.
O branco da paz,
Vermelho da paixão,
Amarelo do ouro,
Verde das matas...O azul do céu.
Na verdade o céu é branco,
As nuvens são manchas
De um borrão azul.
Mas todas essas cores em cima do branco.
A mais bela tela pintada
Pelo mais genial pintor
Com as mais variadas cores
Começa em uma tela branca.
Branco das noivas.
As noivas se vestem de branco
Não pela pureza,
Mas sim pelo começo de uma nova fase.
È.
Tudo realmente começa do branco.