quinta-feira, 6 de junho de 2013


Saravá Minha Mãe!

Uma amiga macumbeira, mas sabe aquelas bem macumbeira, que tem até terreiro em casa, terreiro como de antigamente, pouca gente, gente boa, gente que se conhece que se olha no olho e se abraçam ao chegar e ao sair.
Então, esta amiga em determinado dia da semana faz com seu grupo de amigos uma gira de umbanda em sua casa, lá chegando encontrasse um povo que vem tomar seu axé e sua bênção. Não só desta amiga, mas da casa em si, que ao entrar já se sente os bons ventos do local.
Nestes encontros de fé, em seu quintal de terreiro, existe três bons batuqueiros, puxando o tambor durante as giras. É uma gira cantada e tocada, bonita, serena e com muito amor.
Porém é uma gira, uma gira feita no quintal, por respeito aos vizinhos ela tem hora para começar e para terminar. Nesta gira, ao meu gosto, os meninos dos tambores fazem um batuque bonito, um som digno de uma gira, um som que entra nos seus ouvidos e quando se olha em volta, há uma porção de gente balançando seus corpos que por muitas vezes nem notam que estão a balançar. E os batuques, os tambores que começam baixinho em uma reza, vão crescendo e ganhando corpo ao começarem os pontos. E com o calor da gira, o som e os cantos, as vozes também vão aumentando, vão subindo os volumes, e como este encontro é semanal, o povo da gira até já se entrosaram, e ao som daqueles pontos que não param quase nunca, a não ser que a entidade solicite, eu sinto a grande missão e importância da energia da música dentro da umbanda.
Além deste lindo rito que acontece, existe uma preocupação em sermos discretos, mesmo com tambores e cantos a céu aberto, tentamos nos preocupar, pois é um bairro, que existem casas, famílias. Um bairro tradicional, em uma rua comum, quem em determinado dia acontece um encontro de fé de alguns amigos.
Mas a discrição é uma ilusão, pois com os cantos e os tambores, é óbvio que se escuta ao longe este encontro de fé.
E a prova disto, foi que nestes dias, esta amiga em seus afazeres domésticos, escutando seu sambinha habitual, na labuta do dia-a-dia de uma casa, escuta o tilintar da campainha, parou o que estava fazendo, foi até a sala, pegou sua chave, seus cachorros latindo no portão, um deles com síndrome de gato em cima do muro late para a vizinha que está parada em frente ao portão, bastante assustada com a cena inusitada de um cachorro em cima do muro.
Ela abre o portão, escuta um bom dia, e logo na seqüência uma pergunta inusitada: - Você é da umbanda? Ela responde que sim e na sequência, desembestadamente a vizinha já começa a despejar seus problemas com uma república de jovens ao lado de sua casa, e relata também suas últimas discussões pelas constantes festas na republica ao lado. E que nesta manhã, ao acordar, no muro havia uma despacho deixados pelos jovens e que ela estava preocupada com o que poderia representar aquele “trabaio” feito contra ela.
E solicitou que se possível, ela poderia ir até a casa desta vizinha, que morava mais ou menos a umas cinco casas acima. Ela prontamente aceitou o convite, pois o estado da vizinha em seu portão era tão exaltado que ela achou necessário ir ver sobre o que realmente se tratava.
A caminho da casa, a vizinha com sua voz amedrontada relatou todas as discussões que já tivera com os jovens da casa ao lado, chegou em seu portão, disse a tradicional frase “não “reparar na bagunça”, e foram até o fundo do quintal verificar sobre o que se tratava o tal despacho.
Ao se deparar com a cena, esta amiga que estava em sua pose de mãe de santo, não conseguiu se agüentar ao se deparar com despacho deixados pelos jovens, se é que assim se pode chamar com tais objetos. A vizinha incrédula com o ataque de riso olhava minha amiga sem entender nada e começou a fazer uma série de perguntas, a primeira e mais engraçada foi: - O que a batata significa?
O despacho em questão se tratava de uma batata, cravejadas com palitos de dentes, colocada em um copo quase cheio de água para que a batata começasse a brotar. A moça já meio sem graça pergunta se ela tinha certeza de aqueles objetos dispostos daquela maneira não se tratava de algo para fechar os caminhos ou para fazer mal a alguém. Com uma resposta curta interrompendo a crise de gargalhadas, ela responde que não se tratava de nada, o único trabalha que poderia representar aquela cena, seria o trabalho escolar solicitado pela professora de biologia, e caso aparecesse nos próximos dias um algodão molhado, embebido em água com um feijão no centro, que não se preocupasse, pois não passaria de um trabalho meramente escolar. Ao terminar de falar, se recompôs, pois já notava que a gargalhada era excessiva para a pobre moça já corada em sua frente.
Cenas engraçadas que podem ocorrer devido ao ecoar de tambores que gostaríamos que fossem discretos, mas que ecoam longe e que de certa forma certa forma trouxe segurança para um vizinha bater em uma porta desconhecida e solicitar auxilio mesmo que para uma batata com palitos de dentes e água.
Na casa desta amiga macumbeira, como ela mesma se chama, é exatamente isto. Os que a conhecem, vão porque confiam, porque sempre em seu trato e em seus esforços fez o que estava em seus alcances, e também pela máxima confiança que nela depositam, seja em qualquer esfera.
Os vizinhos já tomam conhecimentos da energia do local, não incomodam ou reclamam dos cantos e tambores, e até já pedem ajuda.
Os de fora vem chegando, cada dia chegam mais pessoas. Aquela pequena roda que tenho na lembrança, hoje já é uma grande gira, uma gira bonita, rezada, cantada, batucada pelos de coração bom que procuram naquela casa uma benção e um axé. Um axé que se ganha em cada abraço, em cada roda de uma boa conversa antes e após os acontecimentos macumbísticos, no dengo em forma de caldinho e em cada “até semana que vem”.
Este encontro de fé é regido por duas forças interessantes.Uma é a dona da casa, esta amiga, que sempre achei uma captadora e emissora de boas energias, energia que senti ao nosso primeiro encontro e que acredito que não nos conhecemos ali, naquele dia que tenho em lembrança, na verdade nos lembramos, nos reconhecemos de outra vida.
E aquela casa! A casa é o cenário perfeito.
Lembro do telefonema dado com as palavras: Achei minha casa!
Ao chegar na casa nova ela com um sorrisão no rosto dizendo: Não é igualzinha a casa do Baronesa? Só que melhor?
Os cachorros aos deleites com o enorme quintal, cavucando, e rolando na terra.
E nem passava em sua cabeça o que aquele quintal iria abrigar.
Nem se passava pela cabeça, de imediato, quantas ervas e plantas nasceriam e os fins que elas teriam, não se tinham noção da energia e das noites de magia que aconteceriam naquele quintal.
E neste cenário, se fez a construção da minha fé.
Eu tinha uma fé abalada por viver experiências em outras vertentes religiosas que não eram baseadas no que conheço agora. A fé que eu conhecia antes, não me servia, ela era uma fé obrigatória e que por um momento em minha vida eu resolvi negar. Ao conhecer uma fé baseada no amor, na caridade, no bem-querer, reconheci minha fé e meu povo, encontrei o meu lugar.
Foi com esta amiga em seu quintal que encontrei minha fé, e ainda é com ela e no mesmo quintal que venho a cada semana, a cada encontro, tentando melhorar como pessoa, melhorar meu conhecimentos em Deus, melhorar meu julgamento, meu olhar sobre o mundo, e meu amor sobre meus irmãos.
Eu conheci através de uma amiga o significado da fé, e hoje sou muito grato a ela por me mostrar que dentre todos os caminhos, eu também tinha o meu.

Saravá Minha Mãe!

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